terça-feira, 12 de julho de 2011

Para Ler III

Olhando bem para a capa deste livro, você deve estar pensando que eu devo ser louca para estar recomendando a sua leitura. Foi exatamente isso que eu pensei da pessoa que me sugeriu o livro, e depois comprou e me mandou pelo correio. Agora, após ler o livro, vos digo que loucura é conseguir parar de lê-lo (mesmo que eu ainda pense que a pessoa que me presenteou o livro seja louca, mas agora por outros motivos).

“O Livro do Mochileiro da Galáxia,” como é chamado em português, foi criado por Douglas Adams em 1978, quando a estória ainda não era livro, e sim, programa de rádio. A série dos cinco livros que completam a saga foram publicados entre 1979 e 1992. Apesar do último livro ter sido publicado há quase duas décadas, as críticas e questionamentos feitos por Adams continuam sendo extremamente relevantes e atuais.

E sim, apesar da capa passar a idéia de que o livro não se passa de uma ficção científica infantil, Adams consegue, com muito humor e criatividade, retratar os mais patéticos valores humanos, as piores falhas da sociedade, e a nossa incessante busca pelo conhecimento de tudo.

Enquanto a leitura é leve e o texto hilário, o livro ainda mantém vivos diversos elementos científicos, críticas políticas e discussões filosóficas. Vale a pena!



quinta-feira, 7 de julho de 2011

Um dia desses na ONU…

Eu ouvi uma anedota interessantíssima que, acredito, define bem a dificuldade da relação entre políticos, cientistas (políticos ou não), e assessores ou técnicos. A estória era mais ou menos assim:


***

Um dia um assessor (ou técnico) resolveu andar de balão. Lá pelas tantas ele se perdeu, e, sem ter noção de onde ir, resolveu, aos poucos, abaixar o balão para que pudesse se comunicar com alguém. Em meio as árvores, ele avistou um homem e o perguntou:

-- Estou perdido e gostaria de saber a localização do meu balão para que possa chegar ao meu destino. O senhor poderia me dizer onde estou localizado?

E o senhor, checando o seu GPS, computador de mão e calculadora, disse:

-- As coordenadas geográficas do seu balão são: 13 50 N, 88 55 O, e o senhor está a, aproximadamente, 100 pés acima do nível do mar.

E o assessor, confuso e ainda perdido, respondeu:

-- Você deve ser um cientista. Eu te fiz uma pergunta simples e você utilizou diversos instrumentos para chegar à uma resposta, me passou vários números e não me ajudou em nada, já que continuo perdido.

O cientista então rebateu:

-- E você deve ser um assessor. Você requisitou os meus conhecimentos para poder basear as suas decisões, eu te dei a resposta mais completa e precisa, e você continua insatisfeito, sem saber o que fazer com as informações que te dei.

E o assessor, já desistindo, suspirou:

-- E o pior é que com essa informação eu não consigo convencer ao político que me mande um time de resgate...

***

A anedota reflete bem a discrepância que ocorre diariamente entre estudos e descobertas acadêmicas e os diferentes níveis de política. Venho presenciando isso não só aqui na ONU, mas também na Assembléia Legislativa da Bahia e no Congresso Nacional. E, o pior é que, no final das contas, o que realmente poderia definir se o pobre coitado vai ser resgatado não é a descoberta da localização do balão, e sim, o custo e o interesse político em haver resgate...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Conversa de almoço e uma pontinha de esperança

“O que mais me impressiona é ver como os meus amigos mudaram,” – disse Deena, enquanto conversávamos durante o almoço na semana passada. “Eu me lembro,” – continuou, “que quando eu ainda morava no Egito, há cinco anos atrás, meus amigos eram muito medrosos. Ninguém entendia ou se interessava por política, e criticar o governo é uma coisa da qual todos tinham receio por conta da repressão que existia (e continua a existir) no país. Hoje, são esses mesmos amigos que expuseram a rebelião na internet e foram às ruas para lutar por um governo justo.”

Deena se referia aos jovens, muitos seus amigos, que participaram da rebelião do dia 25 de Janeiro que aconteceu no Tahrir’s Liberation Square, em Cairo. De lá pra cá, o movimento se transformou de um protesto organizado pela internet por jovens injuriados com a instabilidade econômica e a falta de empregos, à um movimento nacional que visa não só o desligamento de Mubarak, presidente que liderou o país durante os últimos 30 anos, mas também a reestruturação de todo o sistema governamental egípcio.

Eu não estou aqui pra simplesmente repassar as notícias, mesmo porque se pode encontrar a cobertura completa do que vêm acontecendo no Egito em qualquer site de notícias (aljazeera.com). Eu quero somente enfatizar a importância da sensibilização e da manifestação dos jovens perante os problemas sociais e políticos, que tem o petencial de mudar pra sempre a história do Egito.

Quando mais e mais jovens no mundo se desligam da política, economia, e de suas próprias sociedades, para somente valorizarem moda e balada, presenciar o impacto dos jovens egípcios nas ruas de Cairo me deu uma pontinha de esperança.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para Ler II

O Mistério do Capital, Hernando de Soto.

Ganhei esse livro de presente de Natal de um grande amigo da faculdade. Ele disse que eu iria adorar o livro, e apesar de ainda não ter terminado, estou amando!

Hernando de Soto é peruano e um dos economistas mais reconhecidos da atualidade. Ele é presidente do Instituto de Libertad y Democracia que faz pesquisas para instituições e governos ao redor do mundo (principalmente em países em desenvolvimento).

Este livro fala sobre as dificuldades enfrentadas por países em desenvolvimento para estabelecer um sistema econômico capitalista. Idéias revolucionárias e interessantes, além de muito bem escrito. Vale a pena.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O tal do jegue

Agora a poeira já baixou, mas há exatamente uma semana, só se falava disso: O jegue foi proibido de ir à lavagem do Bonfim. Autoridades, ambientalistas, advogados e repórteres passaram dias discutindo a participação do jegue na lavagem, uma tradição da festa, que resultou na proibição e, conseqüentemente, não comparecimento do jegue no cortejo.

No dia 13 de Janeiro de 2011, lá vou eu, pela primeira vez, à uma lavagem do Bonfim - sem o tal do jegue. Apesar de, mesmo antes de ir a lavagem, já ter achado um absurdo e uma perda de tempo tamanha discussão sobre a presença do jegue na tradicional festa, durante o meu percurso da Igreja da Conceição da Praia à Igreja do Nosso Senhor do Bonfim comecei a achar o caloroso debate ainda mais problemático.

No dia anterior ao da lavagem, eu ouvia a rádio e presenciei o seguinte diálogo:

- É que o percurso é muito longo para o pobre do jegue.

- E as pessoas, não vão andando também?

- Mas o jegue tem que carregar muita coisa.

- E as baianas também...

Entre discussões que não levavam a nada, ouvi um comentarista de uma rádio perguntar: "E esse pessoal, que se diz protetor dos animais, vai monitorar o jegue nos outros dias do ano também? Por quê se o jegue não pode carregar peso ou andar muito no dia da lavagem do Bonfim, também não pode fazê-lo nos outros dias do ano." E eu, quieta no carro, ri silenciosamente da simples pergunta que revelava o teor superficial da lei.

Como já disse, ao participar da procissão, percebi enfim que a discussão sobre a participação ou não do jegue na lavagem, foi não somente superficial, mas também usado para desviar a atenção das autoridades e do cidadão baiano dos verdadeiros problemas enfrentados pela nossa sociedade. Como qualquer evento que leva grandes multidões às ruas, a lavagem do Bonfim é um ritual propício para a exposição e propagação de insatisfações políticas: e assim o foi. Enquanto autoridades queriam falar sobre o jegue, o povo baiano queria falar sobre educação, saúde e emprego.

Na lavagem, o problema do jegue, usado midiaticamente para disfarçar e cobrir os problemas reais da nossa sociedade, foi ofuscado pela insatisfação do povo baiano que carregava pôsteres e cartazes que retratavam tal indignação. Mas os assuntos erguidos pelo povo não foram tratados pelas autoridades; os advogados não defenderam nenhuma das causas em questão; a mídia não deu atenção aos assuntos que realmente importavam para os cidadãos; e o povo baiano, que foi levado a acreditar que o problema real era a participação do jegue na lavagem do Bonfim, foi feito de burro.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Um novo ano, Dilma e salto alto.

Eu sei que estou super em falta com este blog, mas o último semestre foi muito pesado pra mim. Espero que o próximo seja mais tranqüilo, já que uma das minhas resoluções para o ano de 2011 foi justamente escrever mais constantemente em português. (Através do blog, é claro.)

Não vou ficar enrolando na introdução, vou direto ao assunto: Fico revoltada com a forma como a mídia e as pessoas vêm falando sobre a eleição e posse de Dilma.

A primeira perspectiva que me aborrece é a que fala de Dilma como a "solução" para o problema de baixa representação política da mulher no Brasil. A literatura no ramo de política de gênero de fato mostra que mulheres vêem o sistema político como uma esfera masculina e que a presença de mulheres nessa esfera aumenta o desejo de participação em outras mulheres. Mas, para mim, Dilma não representa o “poder da mulher na política” mas exatamente o contrário: a manipulação de uma mulher por um homem. Não foi Dilma que ganhou as eleições, e sim, Lula. A última pesquisa do Datafolha mostra que 53% dos brasileiros acham que o governo de Dilma será muito parecido ao de Lula. Então, o fato dela ser “mulher” não mudaria em nada a forma como política está sendo feita. Qualquer candidato lançado pelo presidente teria as mesmas chances de Dilma de ser eleito – o que me leva a dizer que a eleição de Dilma não foi uma vitória para as mulheres na política brasileira.

O segundo tipo de comentário que me incomoda ainda mais que o citado acima, é o que reduz a figura das políticas brasileiras à celebridades que devem estar “na moda”. Quando um homem faz um discurso ou toma posse ninguém comenta sobre a cor de sua camisa ou gravata – e por quê fazem isso com as mulheres? Pois não compreendem como esse mesquinho tipo de comentário é um dos principais fatores que impedem a completa imersão da mulher na política. O pior é que a maioria das vezes são outras mulheres que fazem esse tipo de comentário (sem entender como prejudicam as do seu gênero que tentam entrar em setores que são dominados por homens – como a política).*

Mas isso, infelizmente, ainda acontece em todos os países do mundo. Na disputa presidencial estadunidense, foram feitos inúmeros comentários sobre as roupas de Hillary Clinton e Sarah Palin – muitas vezes deixando de lado o que realmente importava: a capacitação política e as propostas de cada uma dessas mulheres. O mesmo aconteceu no dia 01 de Janeiro, o dia da posse de Dilma. Muitos não falaram sobre a viabilidade dos planos de governo ou sobre o futuro do nosso país, mas não economizaram nos palpites sobre o que as mulheres presentes na cerimônia estavam vestindo.

Enfim... É algo sobre o qual estive pensando (e acho que mais pessoas deveriam pensar).

* Ótimo livro sobre o tema:

Jennifer Lawless and Richard L. Fox, It Takes a Candidate: Why Women Don't Run for Office (Cambridge University Press, 2005).

(Desculpa, mas não sei de nenhum título que possa recomendar em português.)

domingo, 14 de novembro de 2010

Para ler e assistir

Tenho lido tanto livro legal e visto tanto filme bom, que resolvi começar a recomendar alguns deles!

Para ler: Pedro Páramo, Juan Rulfo.

Publicado em 1955 essa novela relata o passado da pequena cidade, Comala, onde o anti-herói, Pedro Páramo, estava acima de tudo e todos. Usando realismo-mágico, Rulfo fala sobre machismo, abuso de poder e outros problemas ainda presentes na América Latina.

Para assistir: Chronique dún été (Chronicle of a Summer), Jean Rouch and Edgar Morin

De uma forma revolucionária para a época, os diretores tentam descobrir a "realidade" de Paris através da câmera. O resultado: cinéma vérité - a verdade como somente a câmera pode captar.

Um pouco mais sobre o filme (explicado por Jean Rouch!)
http://www.youtube.com/watch?v=Pxk-fg771r8